Angústia e regulação psicológica no contexto da pandemia de Covid-19

Ao passo em que avançamos na superação do momento mais crítico da pandemia de Covid-19, cabe refletir, particularmente no contexto brasileiro, a respeito dos efeitos dessa crise sanitária sobre a saúde mental. Crises como essa escancaram, ainda mais, as desigualdades sociais; entre os que gozam de certos privilégios (como estar em situações de vida que permitem optar por menor nível de exposição), é perceptível a emergência de sentimentos ambivalentes e processos de adoecimento psicológico. Os que não gozam de privilégio algum adoecem por razões mais fáceis de se explicar, infelizmente.


Eu arriscaria dizer que a vivência do “agora” tem se contaminado, mais do que de costume, pela crise de referências de futuro. Processos de privação e sofrimento tão prolongados e com perspectiva de fim tão imprecisa – como o que vivemos nessa pandemia –, não por acaso, conduzem pessoas a "gastarem-se", a consumirem recursos valiosos (sobretudo o tempo e as palavras) no mero ato de sofrer e lamentar. Afinal, se não há esperança no horizonte, ocupar-se do mero sofrer mostra-se algo não tão inadaptado.


Esse sofrimento evidencia-se de variados modos. Tem sido baixa a efetividade das nossas empreitadas. O trabalho não rende como gostaríamos ou tínhamos costume; os estudos são, compulsoriamente, feitos à distância; o modo como mantemos relacionamentos mostra sinais de desgaste, devido à baixa de investimentos em presença. Nesse contexto no qual nada é vivido plenamente (mesmo mantendo a lucidez de entender que plenitude é utopia), qualquer felicidade, quando ocorre, acaba por poder ser vivida, basicamente, a um modo clandestino.


Tente visualizar esta cena: você criou condições para comemorar seu aniversário em família – você, seus avós e suas tias já foram vacinados e os demais convidados moram com você. Tudo certo, não é mesmo? Mais ou menos... Sabe-se que é improvável que algum de vocês venha a ser hospitalizado por Covid, mas ainda podem portar o vírus, mas... Não, não vamos entrar na análise técnica dessa questão.


Quero falar de outro ponto: a “felicidade clandestina”. Não aquela da personagem de Clarice, a menina-mulher que fingia, para si mesma, não ter consigo o livro-amante tão desejado para então, mais tarde, surpreender-se uma vez mais com a posse do que tanto desejou. Abordo, aqui, a felicidade de quem não pode dizer que está feliz e precisa viver esse sentimento escondido do outro e, também, de si mesmo. Aquela alegria de quem, mesmo quando por direito socialmente reconhecido, teve a oportunidade de ser vacinado ainda no finalzinho de janeiro ou mesmo em fevereiro de 2021 e escolheu conter o grito de comemoração ao dar-se conta da proporção gigantesca de miséria e desesperança que o cercava. Por convicção ou culpa, não pode dizer, mas, como sentimento é algo que precede à reflexão, sentiu. E quando a gente sente algo que acreditamos que não deveríamos estar sentindo, a conta emocional não fecha: emoção plena é emoção vivida e, quando contida, vira outra coisa que geralmente não é boa.

Voltemos ao seu aniversário. Suponhamos que, ao menos dentro da sua bolha, esteja tudo certo. Cenário ideal. Comemoração com direito a avós e tias. Ninguém usa máscara. Contaminação zero. Sucesso. Você tem sorte. Deve ter se cuidado antes, ou nem tanto. Ainda assim tem sorte. Tem vida e sorte e fez essa bela comemoração... Você está bem, feliz, satisfeito... Está mesmo?

É possível estar verdadeiramente bem dentro do caos? É aqui que a felicidade passa a ser escondida, vivida de forma clandestina, não pelo seu caráter acintoso ou imoral, mas por sua incoerência e esvaziamento de sentido. Sendo radical, faria sentido, em meio a uma guerra, falar ao aniversariante “desejo que você realize seus sonhos e tenha muitos anos de vida”? Não seria mais adequado desejar, em meio ao campo de batalha, “que a gente saia junto dessa (com vida) e que o mundo seja um lugar possível para vivermos bem”?


Falamos em guerra... é radical pensar assim? Em menos de dezoito meses, morreram, por uma única causa, mais de meio milhão de brasileiros. Nesse cenário, a perda de sentido frente àquilo que fazemos para celebrar a vida não é uma abstração. Ao contrário, é sinal de contato puro com a realidade. Não surpreenderei se eu disser que essa verdade gera sofrimento. Que fazer, então? De quais manobras cognitivas vamos lançar mão para afirmar que "apesar de TUDO ISSO, vamos ficar bem"?


Sem querer parecer cínico, sim, vamos utilizar alguma manobra cognitiva. Utilizamos diariamente e assim prosseguiremos. Vamos nos alienar da realidade externa tanto quanto pudermos e vamos celebrar, dentro de nossas bolhas de sorte e privilégios, a vida em seu sentido mais particular, mais privativo.

Não sejamos moralistas nessa leitura. Se conseguimos sucesso nessa abstração, isso é sinal de que temos boa saúde mental. Afinal, viver em um país socialmente tão desigual nos treina, diariamente, a relativizar o sofrimento que não toca nossa carne. Aos mais variados modos, precisamos aprender muito cedo a lidar com a contradição da felicidade dentro de recortes bem definidos. Se não aprendemos a fazer essa relativização e não criamos mecanismos psicológicos compensatórios da culpa (seja lutando por políticas públicas inclusivas, fazendo caridade ou adotando um discurso meritocrático simplista), o desespero é nosso destino. Mas, “como estar bem se...”


Veja bem, não quero, aqui, censurar suas parcas alegrias. Também não quero dizer de um caminho possível para viver “de forma leve” essa situação por vezes imoral ou questionável de sentir-se feliz em meio ao caos. Gostaria, ao contrário, de me solidarizar com você. Quero chamar sua atenção para uma das origens do sofrimento relativo às dificuldades de manter-se na vivência do momento presente. Às vezes vem a angústia e essa angústia, embora possa ter sentidos bem particulares para cada pessoa, talvez encontre sentido em um contexto maior. A nossa angústia, por vezes, encontra o caos atual enquanto objeto doador de sentido.


Sabemos que quando a angústia encontra objeto, ou seja, "tem explicação", ela deixa de ser angústia para se tornar um sentimento mais bem delimitado, mais palatável. Esse contorno que torna os sentimentos disponíveis para nossa assimilação racional, ou seja, que nos possibilita nomeá-los, também permite nosso deslocamento da posição do gastar-se em sofrimento para colocar nossos preciosos recursos pessoais em algum nível de ação transformadora. Assim, se por um lado nosso cinismo diante aos problemas coletivos não sai de graça, a tomada de consciência sobre a realidade concreta que sustenta o mal-estar emocional abre chance de redenção subjetiva.